Curso Básico De Escatologia
INTRODUÇÃO
Durante toda a história da Igreja Cristã, os textos bíblicos, principalmente os proféticos ou
escatológicos têm sofrido consideravelmente devido a todo tipo de interpretação empregada aos
mesmos.
Devemos, portanto, estudar a luz da História e da Bíblia a origem de tais modelos de
interpretação bíblica, bem como as complicações teológicas que tais linhas podem causar.
É de suma importância observarmos que antes de partirmos para o estudo sobre as escolas
milenarista e amilenarista, ou sobre pré-tribulacionismo, pós-tribulacionismo, mesotribulacionismo e
parcialismo devemos nos conscientizar que tal problema parte da questão hermenêutica1
. Por isso
devemos estudar os métodos de interpretação.
O método de interpretação empregado, principalmente quando se trata de Escatologia2
, deve
ser digno de confiança, principalmente após ser submetido a testes.
OBS.: Parte dessa apostila foi elaborada em forma de resumo do Livro: PENTECOST, J. Dwight. Manual de
Escatologia. São Paulo: Vida, 1998
1
Hermenêutica: Arte de interpretar textos; Interpretação do sentido das palavras; Interpretação dos Textos
Sagrados.
2
Escatologia: Doutrina das coisas que deverão acontecer nos últimos tempos. Doutrina das últimas coisas.
AS INTERPRETAÇÕES BÍBLICAS
Os testes empregados nos métodos de interpretações escatológicos, basicamente, devem estar
de acordo com a Hermenêutica convencional.
Na Hermenêutica encontramos necessidades, leis e regras. Que são, respectivamente:
Necessidades:
1- Necessita-se de uma mente respeitosa.
Um filho que não respeita, que caso fará dos conselhos, avisos e palavras de seu pai? A Bíblia é a
revelação do Onipotente. "O homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito, e que
treme da minha palavra." (Is 66.2)
2. Necessita-se de uma mente dócil.
Isto significa ausência de obstinação e teimosia diante da revelação divina. É preciso receber a
Palavra de Deus com mansidão. (Tg 1.21)
3. Necessita-se de uma mente amante da verdade.
Um coração desejoso de conhecer a verdade (Jo 3.19-21)
4. Necessita-se de uma mente paciente.
Como o garimpeiro que cava e revolve a terra, buscando com diligência o metal precioso, da
mesma maneira o estudioso das Escrituras deve pacientemente, buscar as revelações que Deus propôs
e que em algumas partes é bastante profunda e de difícil interpretação.
5. Necessita-se de um a mente prudente.
Iniciando a leitura pelo mais simples e prosseguir para o mais difícil. "Se, porém, algum de vós
necessita de sabedoria, peça-a a Deus... e ser-lhe-á concedida." (Tg 1.5)
Leis:
1- Lei do Contexto: Lc 19.28-44; At 8.30-31; Is 53.7.
A parte que vem antes ou depois do texto. Diz-se que não se deve interpretar um texto sem o
auxílio do contexto.
2- Lei do Texto Paralelo: Jo 19.18; Mc 15.27; Mt 27.38; Lc 23.39-43.
Um texto deve ser auxiliado na sua interpretação utilizando o mesmo assunto que ocorre em partes
das Escrituras.
3- Lei da Autoria do Texto: Ef 5.22-27; I Pe 2.5-10; Ct 8.5-10.
Os diferentes autores da Bíblia viveram em tempos diferentes, em culturas e situações sociais
adversas. Destarte, a forma de apresentação de um determinado texto para um povo que vivia
situações diferentes, deve ser contextualizado com outros em tempo ou forma remota.
4- Lei da Interpretação do Texto: Ap 3.20.
A interpretação do texto é aquilo que a passagem quer dizer no tempo, no espaço e nas
circunstâncias que foram escritas.
5- Lei da Aplicação do Texto: Mt 13.24-30.
Um mesmo texto pode ser aplicado para pessoas ou clãs vivendo épocas ou situações diferentes.
6- Lei da Implicação do Texto: Mt 13.25; Ap 3.18-20.
No sentido filosófico, pode se dizer que uma pessoa geme porque está doente. Se uma pessoa tem
seu rosto plácido é porque o coração está alegre. Aí está a lei da implicação.
Regras:
A REGRA FUNDAMENTAL
A Escritura é explicada pela Escritura. A Bíblia interpreta a própria Bíblia.
Primeira regra
É necessário tomar as palavras no seu sentido usual e ordinário.
Segunda regra
É absolutamente necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.
Esta regra tem importância especial quando se trata de determinar se as palavras devem ser
tomadas em sentido literal ou figurado. Para não incorrer em erros, convém, também, deixar-se guiar
pelo pensamento do escritor, e tomar as palavras no sentido que o conjunto do versículo indica.
Terceira regra
É necessário tomar as palavras no sentido que indica o contexto, isto é, os versos que precedem e
seguem o texto que se estuda.
Quarta regra
É preciso tomar em consideração o desígnio ou objetivo do livro ou passagem em que ocorrem as
palavras ou expressões obscuras.
Quinta regra
É indispensável consultar as passagens paralelas explicando as coisas espirituais pelas espirituais
(I Co 2:13).
Sexta regra
Um texto não pode significar aquilo que nunca poderia Ter significado para seu autor ou seus leitores.
Sétima regra
Sempre quando compartilhamos de circunstâncias comparáveis (isto é, situações de vida específicas
semelhantes) com o âmbito do período quando foi escrita, a Palavra de Deus para nós é a mesma que
Sua Palavra para eles.
DEVEMOS AINDA OBSERVAR:
a. contexto histórico: a época e a cultura do autor e dos seus leitores: fatores geográficos,
topográficos e políticos, a ocasião da produção do livro. A questão mais importante do contexto
histórico tem a ver com a ocasião e o propósito de cada livro.
b. contexto literário: as palavras somente fazem sentido dentro das frases, e estas em relação às
frases anteriores e posteriores. Devemos procurar descobrir a linha de pensamento do autor. O que o
autor está dizendo e por que o diz exatamente aqui?
1. MÉTODOS DE INTERPRETAÇÃO
Existem, atualmente, diversos métodos empregados na interpretação das Sagradas Escrituras.
Métodos que foram surgindo ao longo dos anos e no decorrer da história da Igreja Cristã, contudo
apenas dois métodos são destacados no estudo da Escatologia – Histórico-gramatical (Literal) e
Alegórico ou Método de Alegorização (espiritual).
Citaremos, todavia, para efeito didático os outros métodos:
Haláquico (Interpretação judaica legal)
Hagádico (Tradição narrativa judaica)
Místico (Sobrenatural)
Moral (Ensinos morais)
Naturalístico (Princípio gerador é a natureza)
Mítico (Fábula)
Apologético (Defesa da fé)
Dogmático (Doutrinário)
Alegórico (Negação da história e gramática)
Histórico-Gramatical (Valorização da história e gramática)
Conciliatório (Histórico-Gramatical + Alegórico)
1.1. O Método de Alegorização (Espiritual)
O método de Alegorização (Alegórico) consiste em desprezar o sentido literal e histórico das
Sagradas Escrituras, transformando cada palavra e acontecimento numa alegoria qualquer, escapando
assim de dificuldades teológicas e sustentando crenças religiosas estranhas, segundo Charles T.
Fritsch3
.
De acordo com o Dr. Pentecost4
, ao que parece, a intenção do método alegórico não é
interpretar, mas perverter o verdadeiro sentido das Escrituras, apesar do suposto pretexto de buscar um
sentido mais espiritual ou mais profundo para a Mesma.
Os perigos do método alegórico
Ao observarmos as regras existentes na Hermenêutica perceberemos rapidamente que são em
geral desprezadas pelo método alegórico.
1) Não interpreta as Escrituras (no sentido Hermenêutico da palavra).
... seu hábito é desprezar o significado comum das palavras e dar asas a todo tipo de
especulação fantasiosa. Ele não extrai o sentido legítimo da linguagem de um autor,
mas insere nele todo tipo de extravagância ou fantasia que um intérprete possa
desejar. Como sistema, portanto, ele se coloca além de todos os princípios e leis bem
definidos.5
Existe[...] uma liberdade ilimitada para a fantasia, basta que se aceite o princípio, e a
única base da exposição encontra-se na mente do expositor.6
2) A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete.
3
Biblical Typology, Bibliotheca Sacra, 104:216, Apr., 1947.
4
J. Dwight Pentecost – doutor em teologia e professor emérito do Seminário Teológico de Dallas, Texas, E.U.A.
– Manual de Escatologia, Editora Vida, p. 32, 1998.
5
Milton S. Terry, Biblical Hermeneutics, p.224.
6
Joseph Angus & Samuel G. Green, The Bible Handbook, p.220. Curso Básico De Es
Os perigos do método alegórico
Ao observarmos as regras existentes na Hermenêutica perceberemos rapidamente que são em
geral desprezadas pelo método alegórico.
1) Não interpreta as Escrituras (no sentido Hermenêutico da palavra).
... seu hábito é desprezar o significado comum das palavras e dar asas a todo tipo de
especulação fantasiosa. Ele não extrai o sentido legítimo da linguagem de um autor,
mas insere nele todo tipo de extravagância ou fantasia que um intérprete possa
desejar. Como sistema, portanto, ele se coloca além de todos os princípios e leis bem
definidos.5
Existe[...] uma liberdade ilimitada para a fantasia, basta que se aceite o princípio, e a
única base da exposição encontra-se na mente do expositor.6
2) A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete.
3
Biblical Typology, Bibliotheca Sacra, 104:216, Apr., 1947.
4
J. Dwight Pentecost – doutor em teologia e professor emérito do Seminário Teológico de Dallas, Texas, E.U.A.
– Manual de Escatologia, Editora Vida, p. 32, 1998.
5
Milton S. Terry, Biblical Hermeneutics, p.224.
6
Joseph Angus & Samuel G. Green, The Bible Handbook, p.220.
o estilo mais errôneo de ensino é corromper o sentido das Escrituras e arrastar sua
expressão relutante para nossa própria vontade, produzindo mistérios bíblicos a
partir de nossa própria imaginação.7
...quando o princípio da alegoria é aceito, quando começamos a demonstrar que
passagens e livros inteiros da Escrituras dizem algo que não querem dizer, o leitor é
entregue de mãos amarradas aos caprichos do intérprete.8
3) Não há meios de provar as conclusões do intérprete.
O defensor de tal método não está certo de coisa alguma. Afirma que o método empregado era
o mesmo utilizado por toda a história da Igreja, e que os outros, como o Literal (Histórico-Gramatical)
tem reivindicado falsamente sua autoridade histórica.
Utilizam-se da suposta História Eclesiástica como fonte de autoridade. No capítulo II dessa
seção estudaremos a verdadeira origem histórica dos métodos.
Tal método recai no erro de defender um sentido secundário para a Bíblia sob a alegação de
que o método de interpretação deverá ser a “espiritualização”.
Abre-se assim uma enorme fenda que comporta todo tipo de especulação e imaginação
desenfreados, por não possuírem um método que controle tais especulações.
Conclusão
Elimina-se a autoridade das Escrituras. Falta de bases para verificar afirmações. Redução das
Escrituras à mente do intérprete. Impossibilidade de interpretação verdadeira das Escrituras.
Argumentação dos defensores do método alegórico
1) Uso da alegoria no Novo Testamento
Utilizam o texto de Gl 4:21-31.
Observamos em tal texto que o uso do termo alegóricas refere-se a um fato que tem respaldo
histórico, ou seja, realmente aconteceu, ao contrário do termo – alegórico – utilizado por alguns
teólogos atualmente.
Notamos ainda que em Todo o Novo Testamento esse é o único caso em que isso acontece.
Baseiam seus ensinamentos em um único texto bíblico, que ao observarmos – como já foi dito – o
contexto histórico diferencia-se totalmente do ensinamento atual.
Ao seguir a linha de raciocínio de tais teólogos (Alegóricos) poderíamos então defender a
Hagada9
, e seguir todos os Midrashim10, já que é citado (Hagada) em alguns textos Neotestamentários.
De forma alguma.
A alegoria embora utilizada um vez por Paulo, a título de ilustração passageira não é
mencionada por outros apóstolos nem pelo próprio Cristo.
Devemos notar que em Gl 4:21-31 Paulo não está usando o ‘método alegórico’ de
interpretação, mas explicando uma alegoria.
2) Afirmam que o uso de tipos no N.T. é o mesmo que Método alegórico
Primeiro devemos observar que ‘alegoria’ é uma coisa e ‘método alegórico’ é outra
completamente diferente.
O N.T. está cheio de alegorias que são os tipos, símbolos e parábolas, contudo isso não é
respaldo para o uso do método de interpretação alegórico.
7
F.W. Farrar, History of Interpretation, p. 232.
8
F.W. Farrar, History of Interpretation, p. 238.
9
Hagada – Conjunto de tradições narrativas e interpretativas judaicas.
10
Midrashim – Interpretações rabínicas em que associam sentidos secundários e esotéricos às passagens do
Antigo Testamento.
As alegorias são o meio que Deus usou para expressar um pensamento, facilitando assim
nossa compreensão, onde tais alegorias possuem um fundo histórico real e que foi descrito
gramaticalmente.
O método alegórico, por sua vez, nega a possibilidade de tal fato ter acontecido realmente.
È completamente diferente você interpretar uma alegoria das Escrituras e por outro lado você
alegorizar uma determinada passagem literal.